Arquivo da tag: Truffaut

Literatura x Cinema: crítico LG de Miranda Leão fala sobre essa relação

Livro é livro, Filme é filme

Os jogos intertextuais, isto é, o diálogo entre as artes, tornaram-se, praticamente, uma marca das produções artísticas a partir da modernidade, e tal ocorre entre cinema e literatura

Palavras (as do título) com as quais o saudoso Walter Hugo Khoury (1929-2003), cineasta brasileiro dos melhores (recordem-se os êxitos de “Estranho Encontro” (1958), “Noite Vazia” (1964), “As Deusas” (1972), “O Anjo da Noite” (1974), “Filhas do Fogo” (1978), “Amor, Estranho Amor” (1982), para citarmos alguns dos mais louvados (iniciava a apresentação de um filme, seguida depois de um debate com a plateia de um dos prestigiados cineclubes paulistas.

Um ponto de vista

Walter Hugo Khoury não apreciava esse antigo “leia o livro, veja o filme” de alguns jornalistas, pois poderia sugerir que o filme era uma continuação do livro ou que ambos os veículos eram inteiramente independentes. Por isso mesmo, preferia o título de apresentação destas notas sobre cinema & literatura.

A frase de WHK nos leva ao tema deste texto informal sobre cinema e literatura, mas traz em seu cerne um lembrete tanto para os cinéfilos como para os aficionados de literatura: não esqueçamos, porém, a força expressiva das imagens por si mesmas, independentes de sua significação no conjunto de uma realização cinematográfica e da tipologia de François Truffaut, menos complicada em relação à de Giles Deleuze: afinal, Deleuze é filósofo, Truffaut, um dos mais respeitados realizadores da Nouvelle Vague francesa, desaparecido aos 54, quanto muito ainda poderia ter feito em favor da 7ª Arte. Como estamos vivendo o tempo do predomínio das imagens, iniciado já nas últimas décadas do século XX, não admira terem elas um poder sobre o espectador de cinema muito maior em relação às palavras escritas, os chamados signos linguísticos. Não estamos, é claro, subestimando o valor intrínseco da boa e criativa literatura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Walter Hugo Khoury e o crítico LG: amizade pelo Cinema

Polos distintos

Houve tempo no qual os críticos e/ou fãs de literatura ou de determinados autores (dos quais se fizeram filmes da categoria de “A Carta” (The Letter), de W. Somerset Maugham, levado ao cinema por William Wyler, ou de “Os Assassinos” (The Killers), de um conto de Ernest Hemingway, sob direção de Robert Siodmak, o primeiro deles de 1940 e o segundo de 1946, para só citarmos estes dois), houve tempo, dizíamos, no qual eram censuradas e menosprezadas as modificações, cortes e acréscimos feitos, por isso ou por aquilo, pelos chamados escritores de cinema, os “screenplayers”, “screenwriters” ou “scriptwriters”. No entanto, nas últimas décadas, como bem registra o filmólogo brasileiro Ismail Xavier em oportuno e substancial ensaio, as obras literárias e os filmes nos quais se baseiam ou se apoiam passaram a ser considerados como dois polos distintos e estes comportariam alterações de sentido em função, é lógico, de uma série de fatores.

Assim, a interação entre as mídias, como salienta Xavier, tornou mais difícil recusar o direito do cineasta ou realizador à interpretação livre de um romance ou peça teatral a serem transpostos para o cinema. Admite-se hoje até a possibilidade de o cineasta inverter determinados efeitos, propor outra forma de entender certas passagens do texto original, alterar a hierarquia de valores e redefinir o sentido da experiência dos personagens de sua atuação nas telas. “In verbis”, diz Xavier, “o original literário deixa de ser o critério maior de juízo crítico, valendo mais a apreciação do filme como nova experiência, a qual deve ter sua forma, e os sentidos nela implicados julgados em seu próprio direito”.

As fronteiras

Afinal, livro e filme estão distanciados no tempo, escritor e roteirista ou cineasta não têm a mesma sensibilidade e perspectiva, sendo portanto de esperar um “diálogo” do adaptador, não somente com o texto original, mas com seu próprio contexto. Por exemplo, se determinado livro, digamos, de cunho dramático gerado na Europa dos anos 20, enfocando conflitos familiares bem antes do advento do abominável nazismo (1933), caísse nas mãos de um roteirista interessado em filmá-lo, teria de sofrer modificações na sua adaptação para o cinema ou na transposição do drama humano para o nosso século, longe dos campos de extermínio do regime hitlerista.

Outro caminho

Quanto à transposição de uma peça teatral para o cinema, alguns roteiristas afirmam ser mais fácil levar a trama para fora do palco e dinamizar, em termos de linguagem fílmica, a intriga do autor, como em “O Tempo e os Conways”, de J.B. Priestley, teatrólogo inglês de renome. Haveria menos dificuldade de narrar, assim, os acontecimentos, recriando com uma câmara ágil e perscrutadora o corte preciso e os elos de continuidade, bem assim o impacto original da peça. De fato, o autor inverteu a ordem dos atos: do primeiro ato, de uma reunião festiva e alegre da família, quando todos felizes fazem seus planos para o futuro, passa-se para o terceiro ato e veríamos todos os sonhos e aspirações desfeitos, alguns no primeiro ato já não estão vivos no terceiro … Mas a continuação da peça com a reunião festiva do segundo ato logra um efeito irônico magistral: o espectador sabe agora como quase toda a família Conway do primeiro ato se desfez com a Grande Guerra e outras vicissitudes e marcas do tempo assassino. As comparações entre livro e filme devem valer mais para tornar mais claras as escolhas de quem leu o texto e o assume como ponto de partida, não de chegada

Noções acerca da intertextualidade

O processo das relações intertextuais implica, antes de qualquer outra coi8sa, a superposição de um texto a outro; isto é, a relação que se estabelece entre dois textos, uma vez que um realiza uma citação do outro. Apesar desse processo de construção artística constituir, hoje, uma dos traços das produções artísticas a partir da modernidade, sabe-se que, a rigor, sempre houve releituras, quer realizadas entre os mesmos gêneros, as mesmas naturezas de arte, quer entre procedimentos de criação diversos: literatura e cinema; literatura e pintura; escultura e pintura; música e dança; dança e pintura; literatura e música – e assim por diante. Ao deparar tais procedimentos, há o leitor no receptor a sensação de, contemplando uma arte, vivenciar a sensação de déjà vu. Este critério leva em conta as relações entre um dado texto e os outros textos relevantes encontrados em experiências anteriores, com ou sem mediação.

L.G. DE MIRANDA LEÃO é crítico há 50 anos e autor dos livros Analisando Cinema (Coleção APLAUSO/Imprensa Oficial de SP) e Ensaios de Cinema (edital BNB/programa Cultura da Gente)

“Ensaios de Cinema é livro obrigatório para quem gosta de cinema”

Segundo o escritor Batista de Lima, o livro de LG transmite a sensação de que se assistiu a um festival de clássicos do cinema de todos os tempos
 

Louco por cinema

Um crítico de cinema tem que ser, antes de tudo, louco por cinema. Antes de crítico, cinéfilo. Desses que assistem ao máximo de filmes para ter uma visão global antes da visão particular do que assiste. Há escolas, estilos e fases, até a história do cinema que já acumula uma bibliografia imensa em torno da sétima arte. Não é fácil, pois, trafegar por esses caminhos que possuem, como primeira estação, as salas de projeção. Não é fácil estar antenado com tudo o que está sendo produzido por aí.

Para se ter uma dimensão do árduo ofício de escrever sobre cinema, que se leia “Ensaios de cinema”, de Luís Geraldo de Miranda Leão. É um manancial tão grande de informações e comentários que dá a impressão de que L.G. tem passado seu tempo todo ou em salas de exibição, ou lendo sobre cinema, ou ainda agindo nas duas direções. Mas não é bem isso, quando se sabe que ele se aposentou como funcionário do Banco do Nordeste e ao mesmo tempo como professor da Universidade Estadual do Ceará.

Professor de Inglês da UECE, muito criterioso na sua didática, como testemunhou este escriba, seu aluno, teve antes, 10 anos de docência no IBEU. Estudou em Nova Iorque e ali manteve contato com o cinema americano da época. Curioso saber que ainda garoto, presenciou as filmagens de Orson Welles no Mucuripe, em torno da saga do jangadeiro Jacaré. Além de toda essa atividade, ainda dispôs de tempo para se tornar exímio enxadrista, organizador de torneios em nossa cidade. L.G. pertence à Academia Cearense da Língua Portuguesa desde sua fundação.

Como todo crítico de cinema, observam-se, nos seus estudos, as preferências pelos estilos e as intertextualidades. Daí que é fácil verificar sua facilidade de trafegar pelas produções de François Truffaut, tanto do que produziu para as telas como dos escritos no Cahiers du Cinéma. Por falar nisso é fundamental seu conhecimento da Nouvelle Vague, com a renovação do cinema francês e sua importância para a intelectualização do cinema europeu, com seu respingar em novos diretores americanos. Luís Geraldo é ensaísta zeloso quando trata desse assunto, pois conhece-o a fundo.

Esse seu zelo se mostra enfático quando escreve o ensaio “Macarthismo e a Caça às Bruxas: Olhar retrospectivo”. É que ele fundamenta historicamente esse episódio a partir da frase de Santayana de que “quem esquece o passado está condenado a revivê-lo”. Daí que vêm à tona no seu introito a esse ensaio episódios bem anteriores como as feiticeiras de Salém, a Inquisição com suas 32.000 vítimas, o holocausto na Segunda Grande Guerra. A partir daí ele chega ao cinema americano e o que sofreram Shirley Temple (com 10 anos de idade), Fritz Lang, John Huston, John Ford, Bertold Bretch, Jules Dassin, Joseph Losey e Charles Chaplin, entre outros.

Essa galeria de cineastas americanos e os franceses, além do seu passeio pelo cinema alemão, deixam no leitor cinéfilo aquela expectativa de encontrar os cineastas italianos, no livro. Acredito que deva ter ficado em outro de seus livros. O neorrealismo de Rosselline e De Sicca, os clássicos de Antonioni, Visconti, Scola e Fellini, as comédias de Monicelli e Dino Rissi povoam nossa memória e escrevem o momento de ouro do cinema italiano, que nunca mais foi o mesmo. Isso tudo sem falar em Pasoline. Quanto a Fellini, que cena antológica, Anita Ekberg (Anitona) se banhando na Fontana di Trevi no filme “A doce vida”, de 1960.

Se isso for considerado uma lacuna a ser preenchida no livro, ela se eclipsa com seu texto sobre Bergmann. Ernest Ingmar Bergmann tem tratamento especial no livro, o que demonstra a simpatia de L.G. pelo cineasta sueco. Sua ênfase quando comenta “O Sétimo Selo”, principalmente acentuando a célebre cena do jogo de xadrez entre o cavalheiro egresso das Cruzadas e a Morte faz com que reconheçamos ser uma das cenas antológicas da história do cinema. O mesmo ele faz ao descrever a cena do relógio sem ponteiros em plena rua em “Morangos Silvestres”, bem como as relações entre Bibi Anderson e Liv Ulman em “Persona”.

Toda essa simpatia de L.G. pelos filmes de Bergmann leva ao único momento do livro em que ele trata do cinema brasileiro, e exatamente por aquele cineasta nosso mais influenciado pelo diretor sueco. Trata-se de Walter Hugo Khouri. O ensaio que lhe é dedicado pode ser considerado a culminância do livro. Esse cineasta brasileiro, autor de uma extensa filmografia, influenciado por Bergmann, Antonioni e Fellini, trabalhou em sua obra introspecções e erotismo, principalmente em um momento político brasileiro de exceção em que a moda era o apelo social, era o filme político. Entretanto foi Luís Geraldo de Miranda Leão quem sempre visualizou a importância de sua obra, muito antes de alguns críticos que agora, mudando de opinião, veem a grandiosidade de Khouri.

Finalmente chega-se ao final do livro com a sensação de que se assistiu a um festival de clássicos do cinema de todos os tempos. Isso porque L.G. faz uma leitura ao mesmo tempo apaixonada e objetiva do que é grandioso da sétima arte. Esses seus “Ensaios de Cinema” podem figurar em qualquer bibliografia de pesquisas sobre o assunto. Afinal, seus escritos são tão verossímeis e impessoais, às vezes, que se constituem em um livro didático indispensável para quem estuda cinema.

Clique para Ampliar 

Mergulho no Mundo do Cinema

Caso você seja daqueles interessados em cinema, a recomendação do momento é ler Ensaios de Cinema, mais recente livro do crítico LG de Miranda Leão, jornalista com mais de 50 na estrada, com passagens por todos os grandes jornais de Fortaleza – Correio do Ceará, Unitário, Gazeta de Notícias –, ex-alunos dos mestres da Linguística e da Gramática – Aurélio Buarque de Hollanda, Rocha Lima, Paulo Rónai e Antônio Houaiss -, e colaborador do Diário do Nordeste há mais de duas décadas.

Ensaios de Cinema teve concorrido lançamento no Centro Cultural Oboé, ocasião na qual foi exibido o curta LG – Cidadão de Cinema, homenagem do cineasta capixaba Gui Castor ao profícuo ensaísta (o curta tem 15 minutos e é uma produção Ceará-Espírito Santo, com roteiro assinado pela filha do homenageado, jornalista Aurora Miranda Leão), e vem tendo prestigiados lançamentos em vários festivais de cinema pelo país – a exemplo do Festival Nacional de Cinema de Goiânia, Festival Aruanda de Documentários e Festival de Cinema de Anápolis. E já tem agendadas noites de autógrafos nos festivais de Patos (Cinema com Farinha), Campina Grande (ComuniCurtas), Taquaritinga do Norte (Curta Taquary), Festival de Cinema de Araxá (MG), e VII Curta Canoa (em Canoa Quebrada).

Ensaios de Cinema é mais um produto cultural lançado com o aval do programa Cultura da Gente – linha de ação do Banco do Nordeste que apóia a produção e lançamento de obras artísticas e culturais de seus funcionários aposentados (cuja responsável é a eficiente Rosana Virgínia). LG é um destes. Dedicou mais de 30 anos de trabalho ao BNB e foi lá, por exemplo, onde conheceu o aplaudido cineasta Walter Hugo Khoury, na década de 1970.

Khoury tinha vindo a Fortaleza a convite do BNB para realizar algumas peças publicitárias para a instituição. Ainda no avião, deparou-se com uma página do jornal Diário do Nordeste, onde alguns críticos da cidade apontavam seus filmes preferidos do ano anterior. LG era um desses e o único a indicar dois filmes de Khoury como alguns dos Melhores.  Logo ao chegar ao Banco do Nordeste, o cineasta paulista então perguntou ao fotógrafo da instituição, José Alves, se alguém ali conhecia aquele crítico. E qual não foi sua surpresa ao descobrir que LG trabalhava ali mesmo, como assessora do Gabinete da Presidência.

O encontro de LG e Khoury, crítico e cineasta, foi como o encontro de dois amigos de infância. E culminou com uma amizade que durou até o fim da vida de Walter Hugo Khoury, em 2003.
Os desdobramentos deste feliz encontro é um dos temas do livro Ensaios de Cinema, onde o leitor também pode ficar sabendo mais e melhor sobre a cinematografia de nomes emblemáticos como Orson Welles, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, François Truffaut, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, e ainda sobre a relevância do Cinema Europeu, Sueco e Alemão, e as dimensões dos filmes de guerra e dos filmes B, por exemplo.

O genial STANLEY KUBRICK tem sua filmografia dissecada pela pena do Mestre LG

Conhecido nas lides cinematográficas por seu profícuo exercício da crítica, o mais recente livro de LG – Ensaios de Cinema – tem prefácio com a assinatura do renomado crítico Rubens Ewald Filho, único jornalista brasileiro a cobrir, in loco, a badalada entrega do Oscar: “Tivemos o prazer de editar pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial uma seleção de seus textos. Mas que são apenas uma pequena representação do que ele escreveu nesta última década. Agora temos mais de seus escritos, maior e melhor. Neste livro, todos os textos referem-se a filmes, cineastas ou cinematografias especiais (como cinema alemão, sueco, americano) e há outra coisa que eu admiro, seu rigor. L.G. não  escreve sem ter visto pelo menos três vezes o filme ou a obra a qual se reporta.Antes de tudo, é um livro para mergulhar de cabeça e alma, coração aberto e olhos cheios de imagem”. 

Orson Welles é um dos cineastas analisados pelo crítico LG Miranda Leão

Enquanto da jornalista Neusa Barbosa (biógrafa de Woody Allen e editora do CineWEB), o crítico LG ganhou as seguintes palavras: 

É de admirar que um profissional da crítica mantenha intocado seu fôlego intelectual tantas décadas num mister assim polêmico, não raro ingrato e carregado de incompreensões. Afinal, alguns desavisados costumam confundir os críticos com infalíveis juízes do bom gosto e alguns entre estes, os mais vaidosos, aceitam assim ser considerados. Não é o caso de Miranda Leão que, embora mestre, ensina nas entrelinhas de seus iluminados comentários com a sutileza que cabe aos dotados da melhor sabedoria, amparado numa pedagogia que vem da enorme intimidade com o assunto que comenta.{…} Mestre em literatura de língua inglesa e portuguesa, Miranda Leão domina a língua com uma fina expressão, construindo frases certeiras que, embora se alonguem num estilo precioso, cultivado em épocas mais eruditas do que esta apressada nossa, sempre sabem onde querem chegar. Suas palavras acertam sempre no alvo, construindo análises e conceitos capazes de enriquecer o universo de seus leitores”. 

SERVIÇO

Livro ENSAIOS DE CINEMA

Editado pelo Banco do Nordeste do Brasil

(programa Cultura da Gente)

280 páginas, sugestão de preço: R$ 25,00 

ONDE ENCONTRAR

Livraria Oboé (Center Um)

Livraria CULTURA (www.livrariacultura.com.br)

Livraria Lua Nova (Benfica)

Locadora Distrivídeo 

Mais informações: 9103.0556 (Aurora)

Bressane: “Precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro”

‘Não me enterrem vivo’

Cineasta Julio Bressane reclama de boicote ao seu trabalho por parte das esquerdas e da imprensa

* Arnaldo Bloch para o jornal O Globo

 Julio Bressane em Lisboa, na Avenida da Liberdade - Foto Enric Vives-Rubio

Em Lisboa para mais uma retrospectiva europeia de sua obra, o cineasta Julio Bressane diz que no Brasil é ignorado pelos editais de financiamento de filmes, as esquerdas e a imprensa o boicotam há 40 anos e a opinião pública de hoje é herdeira do fascismo. 

Como é ser um dito cineasta marginal no século XXI?

JULIO BRESSANE: Hoje a expressão marginal goza até de certo prestígio. Mas foi uma invenção espúria no âmbito de um certo esquerdismo que não perdoava qualquer espírito de vanguarda que não rezasse pela cartilha, como o meu. Não era um bloco monolítico. Afinal, Cinema Novo, em termos de filmes, não queria dizer nada. É sempre assim: no fim, colocam um rótulo para facilitar a inserção no mercado.

Como a bossa nova…

Ou como a Nouvelle Vague. Truffaut, quando indagado sobre o movimento, disse que eram uns contra os outros. Mas o fato é que a coisa do “marginal”, para esse grupo, significava a abjeção suprema, o antissocial. E essas pessoas criaram a Embrafilme, tomaram conta das fontes de financiamento e continuam no poder até hoje. Assim o guichê da Embrafilme ficou vedado a uma meia dúzia de desajustados, entre os quais gente como eu e o Sganzerla. Por isso precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro, para sobreviver.

Mas como seus filmes são financiados?

Em geral, como qualquer filme: através do dinheiro público. Mas com orçamentos pífios, que variam de R$ 200 mil a R$ 500 mil. Porém, um dos meus projetos recentes no qual eu mais apostava, “O beduíno”, vem sendo barrado há dois anos. Nos três editais de que participei, solicitando R$ 600 mil para produzir todo o filme, as comissões julgadoras concederam seu aval para 65 longas-metragens e eu fiquei de fora!

O que aconteceu?

Além das razões que citei antes, há esta mentalidade de que “filme de público” ou “filme de mercado” têm preferência. Ora, isso não existe. Com raras exceções, não há filme que dê lucro. A cada 50 filmes americanos, um se paga. Se considerar o custo do filme, o público não paga nem a cópia. O dinheiro vem única e exclusivamente das fontes, privadas ou oficiais, de financiamento. São elas que pagam as equipes, os diretores, os atores. Os filmes brasileiros, então… Com exceção de um ou dois, é tudo deficitário.

Dos seus filmes, qual deu mais público até hoje?

Nenhum deu “mais público”, já que nenhum deu público algum… Mas mesmo que nem eu vá, eles nunca dão prejuízo em comparação com esses colossos de custos astronômicos. Filmes que custam R$ 200 mil já estão no lucro só de irem à tela. O mais recente, “A erva do rato”, ficou nove semanas em cartaz numa sala. Há grandes produções que ficam o mesmo tempo e produzem grandes rombos. Outra limitação é a imprensa. Venho sendo vítima de um trabalho prolongado de censura a mim e a meus filmes. Quando fiz “Cleópatra”, a maneira com que o filme foi tratado foi de uma brutalidade e vulgaridade sem par. É uma mentalidade genocidária. O que não quero é que me enterrem vivo, isso é que não pode. Essas coisas representam uma espécie de veto à sua vida. Feito por gente com sensibilidade de barata. Esquecem que há gente sensível. Às vezes o que para uma pessoa é uma coisa natural pode levar outra à morte. Conheço em cinema pelo menos três casos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/05/06/julio-bressane-reclama-de-boicote-ao-seu-trabalho-por-parte-das-esquerdas-da-imprensa-924399511.asp#ixzz1Ljsd7CGr

 

* N.R.: Cineasta de minha maior admiração, cuja obra O Mandarim, de 1995, foi tema de meu trabalho de conclusão da Pós-Graduação na UFC – Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos -, JÚLIO BRESSANE é de nossos cineastas o mais erudito e um dos homens mais doces com quem já tive a oportunidade de conversar.

Fico profundamente triste e solidária ao desabafo de BRESSANE e, por isso, não posso deixar de expressar minha mais intensa sintonia com o pensamento e a obra magnânima deste Cineasta – a quem o mundo reverencia constantemente, seja através de mostras retrospectivas, palestras, debates e festivais de cinema, vide a homenagem que ora recebe em Portugal; a que recebeu no início do ano no Uruguai; e as homenagens anuais na Itália -, bem como minha completa repulsa a esta sensação de indiferença e desapreço que hoje se apossa de Julio, inexplicável por tudo quanto já doou à Cultura Brasileira e ao acervo emocional de tantas pessoas que, como eu, aprenderam a  admirá-lo por sua obra importante, singular, e necessária, e descobriram no cineasta um homem sábio, profundo conhecedor da cultura de seu país, sensível, de uma delicadeza que se expressa até na sua maneira pausada de falar e na sua voz sempre baixinha, e, sobretudo, um homem de Cultura e da Cultura, um erudito na verdadeira acepção da palavra.

Nosso APLAUSO mais carinhoso e solidário a JÚLIO BRESSANE e nossa profunda Admiração pelo seu Cinema e sua obra magistral.

Ottokar Runze, Expoente do Cinema Alemão

Runze em Oberhausen

Primeiro plano de Marion (Nina Ross) num momento de descontração no estúdio, preparando-se para interpretar sua última canção no filme, um momento inesquecível

Um dos personagens deste fragmento de cena, sempre muito discreto, é o agente infiltrado da GESTAPO. O espectador saberia descobri-lo em tempo?

Marion tenta convencer o amigo a uma tomada de posição diante da situação de como fugitivo

Registramos anteriormente,  numa visão histórico-panorâmica simplificada, a participação de vários realizadores para o ressurgimento do cinema germânico. Por lapso, omitimos o nome de Ottokar Runze, o qual também contribuiu, então com 37 anos, para o ímpeto do “Junger Deutscher Film” (JDF), nome pelo qual o Novo Cinema Alemão ficou conhecido e teve seu ponto de partida em 1962, no Oberhausen Manifesto. Como se recordarão os cinéfilos, trata-se de documento assinado naquele Film Festival por um grupo de 26 escritores e cineastas a exigirem liberdade para contestar certas restrições e exigências às vezes descabidas das convenções da indústria e de produtores, bem como as normas de caráter comercial para o cinema. Havia realmente algo de novo no ar.Houve aliás quem visse a influência da Nouvelle Vague sobre vários realizadores da Europa. Mesmo não sendo a NV um movimento formal, mas antes o trabalho de cineastas franceses com idéias renovadoras abrangendo grande variedade de temas, emprego de atores pouco conhecidos, filmagens fora dos estúdios, câmara na mão, espontaneidade dos diálogos, fluidez do ritmo, ruptura com o cinema um tanto teatral de então, etc. O princípio básico da NV, recorde-se, era o do “auteur”, ou seja, cada filme expressava a visão pessoal e as idéias do seu “metteur-en-scène”.

Nos primeiros tempos, como se sabe, o triunvirato formato pelos jovens François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol esteve sob a influência de André Bazin (1918-1958), crítico, teórico, diretor da “Cahiers du Cinèma”, prestigiosa revista de análises e ensaios da melhor qualidade. Oportuno citar aqui as observações do escritor Neil Thomas para quem a NV nasceu da intelectualização dos filmes franceses dos anos 1950 e início da década de 60, com sua explosão de energia criativa. Foi de fato um movimento marcante do cinema francês.

Diferente da NV, todos eles críticos e redatores da Cahiers sob a liderança de Bazin, principalmente como reação aos métodos convencionais do cinema clássico, o denominador comum do jovem cinema alemão foi uma afronta espontânea à qualidade de vida burguesa, embora a filosofia e o estilo dos seus diretores variassem muito, individualmente: suas realizações foram limitadas por um zelo similar revolucionário e uma visão de vida humanística, quando não com freqüência fatalista.

Os novos cineastas alemães também exigiam liberdade de expressão em face das restrições impostas pela indústria, do contrário não se poderia criar um Novo Cinema Alemão. O Manifesto de Oberhausen veio para ficar. Digam-no Roland Suso Richter, Florian von Donnersmark, Tom Tykwer, Jo Baier, Ray Müller, Jean-Marie Straub e as qualidades dos filmes dos anos 70. As décadas de 80 e 90 já traziam outros enfoques temáticos e destacavam mulheres cineastas, como Agnieska Holland e Doris Döorie, ao lado de Percy Adlon, Eberhard Junkersdorf, Michael Klier, e Hans W. Geissendorfer, Edgar Reitz, Roger Fritz e Will Temper, dentre outros.

Sobre Bazin

Muito grande foi a autoridade intelectual de André Bazin (leia-se “O Que É Cinema?”) sobre os “nouvelle vagueurs” franceses, considerados por muitos como o “professor dos meninos”. Bazin, recorde-se, privilegiava a “mise-en-scène” e não a montagem, bem assim os estilos fundados no plano-sequência e na profundidade de foco dos filmes de Welles tão bem analisados por ele numa coletânea de artigos dedicada ao gênio de Wisconsin, o “enfant terrible” de “Kane” e “Ambersons”.

Bazin privilegiava também a verdadeira “continuidade fílmica” e reproduzia situações dramáticas de forma mais realística, deixando a interpretação de determinadas cenas mais com o espectador e menos com o ponto-de-vista da montagem. Alguns cineastas alemães assimilaram muitos dos ensinamentos de Bazin, aliás leitura obrigatória para todos quantos estudam cinemas e dirigem filmes.

Direção do elenco

Quanto à condução dos intérpretes, Runze não poderia ter feito melhor. Todos estão afinados com seus papéis e mesmo os personagens secundários não comprometem sua participação no drama. Para Nina Ross sobram encômios. São expressivos seus cantos de protesto, não só a prolação das palavras, como a expressividade das suas imagens-rosto. Vale a pena transcrever pequena parte dos versos da bela melodia criada por Heinz Eisler, a última, um canto de saudade, libertador, no qual imagens metafóricas e hiperbólicas se combinam harmoniosamente para dar aos versos um caráter invulgar. /”Meu dia está sombrio/Seu dia está sombrio/ Vamos juntos, queremos nos dar as mãos E nos entendermos muito bem. /O caminho é longo, o caminho é tortuoso, Com certeza seremos premiados.

/Queremos nos prender a alguma idéia realmente feliz E ter um castelo /na lua Um pouco de saudade, um raiozinho de sol, Uma saudade dos dias sombrios/ Saudade, não importa por qual razão /Um pouco de saudade e um sonho efêmero Saudade que jamais acabe, mintamos para nós mesmos /Enganemo-nos penetrando neste mundo e uma vez nele /Transformemo-nos em príncipes e princesas, seres de ouro, /Um pouco de saudade, /um sonho efêmero, Uma saudade que jamais acabe (…)

Senso do cinema

Próximo ao final, Runze surpreende ao produzir um efeito criativo com a colagem de dois planos sucessivos, de tal modo o espectador não perca a continuidade da narrativa visual. Vemos e ouvimos Nina cantando, mas Runze corta e retorna para a jovem em procedimento de aborto, enquanto a enfermeira lhe deixa cair gotas de anestésico na meia-máscara e lhe pede para soletrar os números… Na sua categoria de filme dedicado a todos quantos foram forçados e deixar sua pátria em busca de uma sobrevivência mais digna, “Der Vulkan” é uma realização como poucas dirigida por quem conhece o metiê. O arremate mesmo se dá no face-a-face com a presença do agente infiltrado. O espanto é de quem se vê a sós com uma mulher bonita e decidida, mas o espanto também é nosso. Vemos os dois personagens: eles não se falam. Não há nada a dizer. As imagens dizem tudo.

O ponto final

Dos conflitos vividos pelos personagens do drama e da tensão crescente a caminho do clímax e das imagens-significantes, como se lê na tipologia de Truffaut, (surpresa, choque ou impacto), chega-se ao final. Antes já se vira como a jovem grávida, submetida depois a um aborto, prepara o seu suicídio. O ponto vermelho no braço e sua posição no estrado dizem tudo. Só uma voz parece dizer “a morte é a noite fria” e “a vida, um dia abafado”… Ecoam algumas frases como “Éramos estranhos em nossa própria terra”, enquanto as imagens parecem sugerir outras como “Hoje somos pessoas em trânsito, sem destino fixo”. “Onde estão nossos amigos?”, alguém pergunta. “Todos executados em Sachenhausen”, um campo de extermínio só possível de existir em nosso mundo louco. Pior, havia outros campos da espécie para eliminar judeus e até crianças como em Auschwitz.

A câmara em posição “plongée” leva o espectador aos companheiros em volta do túmulo, enquanto a objetiva se vai movimentando em torno deles. De lá o ajuste de contas entre Marion e o agente infiltrado, como já referido. Depois se torna bastante expressivo o uso dos planos próximos quando a fumaça das locomotivas parece mesclar-se ao apito dos trens e casar-se com o choro de Nina e a despedida de amigos a caminho da Espanha fascista de Franco. Poucas vezes, aliás, se lê num filme o significado intrínseco das imagens-movimento dos trens de ida-e-volta. Runze encerra sua obra-mestra com a volta de Mãe Schwalbe ao mesmo cemitério onde as folhas amareladas do outono começam a cair como na abertura do filme. Um plano visualmente rico capta, à direita, Marion de costas, com seus cabelos louros, e ao fundo, longe, em profundidade, vê-se apenas o espaço vazio. Cai o pano.

Saiba mais

“Le Cinéma Allemand”, de Bernard Eisenschitz, Paris: Nathan, 1999;

“20 Ans de Cinéma Allemand”, de J. L. Pessek, Centre O. Pompidou, Paris, 1978;

“As Teorias dos Cineastas”, de Jacques Aumont, 2ª ed. Papirus Editora, 2008;

“O Que É Cinema ?” (Qu´est-ce que Le Cinéma?), de André Bazin, Col. Horizonte de Cinema, Brasiliense e Livros Horizonte, 1992;

“França”, de Neil Thomas, Larousse do Brasil, São Paulo, 2009;

“Movies, A Language in Light”. de Richard L. Stromgren & Martin F. Norden, Prentice Hall, Inc. Englewood Cliffs, New Jersey 07632, 1984;

“The Film Encyclopedia”, de Ephraim Katz, 3rd. ed. revised by F.Klein & R.D.Nolan, Harper Perennial, New York, NY, 1998; e

“Cinema as Art”, de Ralph Stevenson & J. R. Debrix, Baltimore, Maryland, USA, 1970.6.

A propósito do Resta Um…

Porque o RESTO é sempre MAIOR que o Principal 

Estávamos todos contagiados. O mesmo sentimento de euforia e entusiasmo contagiou a mim, Ingra Liberato, Rosamaria Murtinho, Miguel Jorge, Rogério Santana e Alex Moletta naquela agradável noite goiana, ancoradouro privilegiado para nossa emoção, transformando em vibração entusiástica os pilares e preceitos nos quais se ergueu a Belair. A calorosa sensação de ter encontrado alguma coisa que parecíamos buscar há tempos, invadiu o espírito de todos, e nossa vontade era sair abraçando cada um, como dizia a inspirada letra de Chico : “Era uma canção, um só cordão, uma vontade, de tomar a mão de cada irmão pela cidade”… Sim, era como se, a partir das contundentes e belas imagens garimpadas por Bruno Safadi e Noa Bressane, tudo começasse a criar sua própria lógica e os sentidos eregiam conexões absolutamente inovadoras, criando sensorialidade onde antes havia interrogação e tédio. Uma incisiva sintonia aflorou e o rosto de cada um estampava fulgores até então impensáveis.

Capital goiana foi a concha envolvente que abrigou o RESTA UM

Assim, foi-se desenhando com mais clareza a idéia inicial de fazer um registro imagético do inesperado encontro em Goiânia, cidade aprazível demais para deixarmos perder-se nos desvãos do andamento voraz do cotidiano, próprio da modernidade líquida onde estamos imersos(tão bem definida pelo sábio sociólogo Zigmunt Balman).

Miguel Jorge, Ingra l.iberato, Alex Moletta, Aurora, Rogério Santana, Rosamaria Murtinho e Débora Torres: cada um, a seu modo, contribuindo pro RESTA UM

Qual deveria ser o próximo passo então ? Como alinhavar os elos das intersecções que fomos amealhando ao longo daqueles dias, arejados de imagens e plenos do oxigênio das afinidades que se impõem pela naturalidade de ideais siameses ? Como traduzir pelo gesto da palavra e a alquimia do olhar análogo aquela luminosidade que nos arrebatava e intrometia-se em nossas conversas, todas as horas, noite adentro ? Como significar a eloqüência do instantâneo entrosamento em Goiânia e o contato absolutamente conversor expresso no encontro com a Belair ? A Belair de Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignêz…

Cineasta Júlio Bressane, inspirador do clima nas gravações do Resta Um

As idéias então foram tomando assento: no restaurante do hotel, na van que nos conduzia ao cinema, nas cadeiras da sala de exibição, nas trocas de assunto a palpitar quando, a maioria de nós, assumia a função de jurados.

Então Samuel Reginatto, imagem da alegria numa única noite de cinema e festa, se juntou a Júlio Léllis, cineasta amante da Literatura e da sensatez; e se somou à disponibilidade integral de Ingra Liberato, ganhando a benfazeja cumplicidade de Rosamaria Murtinho; e conquistou Miguel Jorge, sábio escritor que de imediato aderiu à nossa idéia de fazermos um filme; e chegou até a Alex Moletta, ator e roteirista a nos encher de ânimo e verdade; e encontrou guarita em Débora Torres, chegando até Rogério Santana, e extrapolando fronteiras para ganhar Sílvio Tendler, Henrique Dantas e o próprio Bruno Safadi. 

Assim, em apenas cinco dias de absoluta imersão no universo da Sétima Arte, do qual Goiânia é âncora todos os novembros, foi gestado o Resta Um, curta-metragem agora ofertado para o olhar, a mente e o coração de quem estiver na platéia ou com este texto em mãos.

Resta Um é um curta digital, colorido, tem 19’25”, roteiro e direção de Aurora Miranda Leão. Ingra Liberato é a presença mais constante, embora não possamos dizê-la “personagem principal” ou protagonista. Isso não existe nos filmes Belair. Lá como cá, os atores não representam mas valem pelo que representam, como nos diz Antônio Medina Rodrigues, e aí a cabeça do espectador tem todo o controle e pode optar por entender o que quiser. O que pra uns pode estar explícito, para outros pode ser apenas um jogo do roteiro ou uma insinuação da direção.  

A imagem icástica de Ingra Liberato a ilustrar o cartaz, bem como o material de divulgação do filme, mostra o indicador da atriz apontando… como a indicar que Resta Um

O que resta encontrar então neste novo filme que Aurora Miranda Leão ora nos oferece ? 

O que resta pode ser você, espectador, que não participou das filmagens e não conviveu com o grupo formado em Goiânia. Resta você que entende a intenção da obra ou resta você que vai sair do cinema perguntando sobre o que é mesmo que viu e qual o sentido deste filme. 

Resta Um filme a ser feito, um fotograma a ser exibido. 

Resta Um desejo de falar da vida e contar da alegria através do cinema. Resta Um desejo de contagiar e fazer coro ao convite de Sílvio Tendler para tentar fazer mais gente entrar nesta canoa. 

Resta Um ator que não estava nas filmagens, um vinho que não foi tomado, e um beijo que não foi roubado. Resta você que se pergunta sobre o sentido deste filme, resta você que poderia ter dado um depoimento. Resta Um espectador que chegou atrasado e um diretor que não foi convidado.

Resta Um convite que não foi aceito e um amor que não se realizou. Resta Um filme que não foi feito e um roteiro inacabado, um caminho a ser seguido e um piano esquecido no canto da sala. 

Resta Um punhado de bons filmes a ver e belas músicas pra ouvir.

Resta Um violão que emudeceu e um canto de passarinhos que não se reproduziu.   

Resta Um carinho esquecido, um afago a ser lembrado e um afeto nunca recebido.

Resta Um filme a ser visto, um aplauso a ser ouvido e um som a ser imitado.

Resta Um enquadramento por fazer, um som e uma luz em sintonia.

Resta Um coração a ser tocado, um amor a ser encontrado.

Resta Um barco no oceano e um barco-olho rumo ao infinito.

Resta Um motivo a mais para se cultivar a ética, um passo a mais a ser dado, um gesto a menos a ser esquecido.

Resta Um belo quadro na parede, flores viçosas na varanda e um roteiro a ser escrito.

Resta Um canto triste a embalar a solidão e um tango sempre disposto a tocar.

Resta Um coro de pássaros a anunciar uma manhã na qual os jornais só estampem boas notícias e um amor de pai e mãe que nem a dor da ingratidão abafou.

Resta Um gol argentino a ser aplaudido, um drible de Messi a ser imitado e uma canção de Lupicínio ecoando na sala. 

Resta Um desvario a ser socorrido, um cotidiano de sonhos a percorrer o imaginário e um arrojo de Kubrick a ser lembrado. 

Resta Um quadro de Picasso a querer ver, um Renoir ainda intacto, um Rembrandt pra quem desconhece as nuances da cor e um bolero de Ravel acordando as madrugadas douradas. 

Resta Um caminho novo a buscar, uma ousadia nova a perseguir e um lixo amontoado na calçada que Vik Muniz precisa transformar. 

Resta Um samba em homenagem à nata da malandragem, um swingue de Gil e Mautner, um ator com a competência de Mauro Mendonça, um desejo de ouvir a contagiante gargalhada de Zéu Brito e mais algumas pérolas de Wisnik.

Resta Um canto feliz de andorinha a sonorizar a espera tão acalentada, e um movimento de Tchaikovsky tocando pra quem não tem medo da música clássica. 

Resta Um texto de Rubens Ewald Filho pra ler, um poema de Jorge Salomão que não nos sai da cabeça, um personagem para Fernando Eiras interpretar e um ator da grandeza de Emiliano pra gente ensinar aos que ainda vão chegar.

Resta Um brilho no olhar da criança esquecida nas madrugadas soturnas das grandes cidades, e um brilho de esperança no gesto de quem vivencia a solidariedade. 

Imagem de Aos Pés, premiado curta do cineasta gáucho Zeca Brito…

Resta Um take a mais de Zeca Ferreira, mais um documentário que Gui Castor está a concluir, uma nova inquietude imagética de André da Costa Pinto, e um novo mergulho nas invenções fílmicas de Zeca Brito.

Resta Um outro Benjamim de Gardenberg para Paulo José, um outro Suassuna para Nachtergaele, um texto com a concisão de Carlos Alberto Mattos, um novo documentário com a assinatura de João Moreira Salles e o precioso olhar de Coutinho.

Resta Um livro a ser lido e um grande autor a ser celebrado. 

Resta Um disco bonito na vitrola, um guardanapo com um poema que a noite revelou, um lenço para amparar lágrimas de amor. 

Resta um quadrilátero de paixão nas esquinas nas quais ela em vão aguardou um adeus. Resta Um um sinal de que a vida é o bem maior. 

Resta Um poeta que a noite teima em querer despertar e um silêncio revelador que o ouvido atento antevê. 

Resta Um desassossego da alma em desalinho pela paixão que arrebata e se intromete nas horas mais improváveis.

 

Resta Um violão dedilhando Bossa Nova e um bar em Ipanema rememorando Vininha.

Resta Um choro de flauta aguardando Pixinguinha e um verso ousado de Clarice, Coralina ou Adélia Prado.

Resta Um solo de Toquinho, uma marchinha do Lalá, um twiiter de Carpinejar e um olhar acurado de Caetano que a manhã precisa revelar. 

Resta Um minuto para que possamos afirmar a palavra necessária e um espanto ante à embriaguez do luar. 

Resta Um comovido apelo à Paz e uma busca incessante pela alquimia dos grandes amores. 

Resta Um olhar sempre atento à obra de Truffaut e à dramaturgia de Fassbinder, um interesse crescente pelo bandoneon de Piazzolla e um espanto ante à indiferença da sociedade do descartável. 

Resta Um motivo sempre novo para ver Fernanda representar e reler a grandeza necessária de Ibsen. 

Resta Um atrevido gosto pelos filmes incompreensíveis e um incontido apego aos lugares onde a emoção fez amigos e plantou saudades. 

Resta Um cantinho, um violão, um microfone para celebrar Mário Reis e um anseio de ouvir cantar como Francisco Alves. 

Resta Um filme de Bressane a ser visto e estudado e um olhar acurado sobre a cinematografia inspiradora da Belair. 

Resta Um dilacerante silêncio ante a brutalidade do desaparecimento de John Lennon e um inexplicável mal-estar ante as ingerências nefastas da política no cotidiano. 

Resta Um infinito e revolucionário desejo de se perpetuar nos fotogramas que hoje são pixels nas alquimias da edição digital, tão rápida e eficiente que nos faz brincar com as horas e achar graça da facilidade de criar temporalidades diversas, fazer andar pra frente e retroceder nos ponteiros de nossa imersão cotidiana. 

Resta Um constante e permanente desejo de continuar abraçando o cinema brasileiro e um desejo intermitente de ouvir o som paralâmico da guitarra de Herbert Vianna

Resta Um olhar para A Última Palavra, aquela que nos tirará do dilema profundo que parece nos atar ao nada existencial. 

Resta Um indormido desejo de expressar-se e traduzir em imagens o que vai n’alma e no pensamento. 

Resta Um permanecente intuito de reaprender a amar pra não morrer de amar mais do que pude. 

Resta, sobretudo, essa vontade enorme de acertar e prosseguir fazendo cinema e apostando em coisas nas quais acreditamos, sejam elas concludentes ou não. 

Resta ademais um desejo de falar de vida, o aconchego do abraço amigo nas noites eternas, e a ânsia de chegar a um tempo onde a ingratidão morra de sede, a indiferença naufrague de tédio, a injustiça definhe por inanição e a estupidez se envergonhe de existir… 

Porque, enfim, Resta Um desejo de amar e ser amado

Amar sem mentir nem sofrer

Desejo de amar sem mais adeus…

Até, quem sabe,

Resta Um desejo de morrer de amar mais do que pude. 

Enfim, Resta Um anseio de que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais, a expressão do outro sob a forma ampliada e refletida do eu individual aprimorado. 

* O título deste artigo e as palavras finais nos foram inspirados por textos do cronista Artur da Távola, bem como as citações óbvias aos versos do saudoso poeta Vinícius de Moraes

Ensaios de Cinema na Oboé…

Ensaios de Cinema Será Lançado QUINTA na OBOÉ 

O mais constante crítico de Cinema em atuação no Norte e Nordeste, com mais de 50 de batente, LG de Miranda Leão é cearense, Bacharel em Literatura de Língua Inglesa e Portuguesa, aposentado pelo Banco do Nordeste do Brasil e pela Universidade Estadual do Ceará.
 
Na próxima quinta-feira, dia 20, LG lança seu novo livro ENSAIOS DE CINEMA (selo Cultura da Gente, programa do Banco do Nordeste que apóia iniciativas de funcionários aposentados), em noite festiva no Centro Cultural Oboé, quando será exibido o curta LG – Cidadão de Cinema, feito em sua homenagem pelo cineasta capixaba Gui Castor.

 

Ensaios de Cinema vem tendo ótima repercussão em festivais de cinema pelo país, já tendo sido lançado em Goiânia, Floriano (PI), João Pessoa, e no FestCine Maracanaú, e conta com convites também para lançamentos em São Luís, Santos, Rio de Janeiro, Jericoacoara, Canoa Quebrada, Campina Grande e Taquaritinga (PE).

 

Nomes como os de Orson Welles, Stanley Kubrick, Ingmar Bergman, François Truffaut, Federico Fellini e Michelangelo Antonioni, entre tantos outros, são foco da pena do Mestre LG a nos guiar delicada e inteligentemente pelas vastas searas onde se inscrevem as obras destes grandes samurais da alquimia de perceber a vida e adentrar o mundo, através de pontos-de-vista especiais transformados em sabedoria pela magia eterna da Sétima Arte, como diz sua filha e organizadora da obra, jornalista Aurora Miranda Leão.

 

Walter Hugo Khoury e LG: amizade registrada em Ensaios de Cinema         

Conhecido nas lides cinematográficas por seu profícuo exercício da crítica, Ensaios de Cinema tem prefácio do jornalista Rubens Ewald Filho: “Tivemos o prazer de editar pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial uma seleção de seus textos. Mas que são apenas uma pequena representação do que ele escreveu nesta última década. Agora temos mais de seus escritos, maior e melhor. Neste livro, todos os textos referem-se a filmes, cineastas ou cinematografias especiais (como cinema alemão, sueco, americano) e há outra coisa que eu admiro, seu rigor. L.G. não  escreve sem ter visto pelo menos três vezes o filme ou a obra a qual se reporta.Antes de tudo, é um livro para mergulhar de cabeça e alma, coração aberto e olhos cheios de imagem”.

   

 SERVIÇO

 LIVRO ENSAIOS DE CINEMA

LANÇAMENTO: programa CULTURA DA GENTE/ BANCO DO NORDESTE DO BRASIL

ONDE: CENTRO CULTURAL OBOÉ

QUANDO: Quinta-feira, 20 de Janeiro

HORA: 19:30h

 * Livro à venda na Livraria Oboé (Center Um)

 

Mais informações: 3264.7038

Fanny Ardant: É Possível Morrer de Amor

Musa do cinema francês participa do projeto coletivo Then and Now, que vai reunir 14 curtas em um longa

Fanny: ‘Morrer de amor é coisa muito atual, me dizia Truffalt’. Foto: Keiny Andrade/AE

Reproduzimos entrevista do crítico Luiz Zanin Oricchio com a atriz

Fanny Ardant, musa do cinema francês, atriz de Truffaut, Resnais, Lelouch e Costa-Gavras, está em São Paulo. Não como atriz. Ou melhor: não apenas como atriz, mas como cineasta. Ela dirige o curta-metragem Chimères Absentes (Sonhos Ausentes), parte do projeto coletivo Then and Now, concebido e produzido pela Art, que vai reunir 14 curtas num longa a ser lançado em 2011. Um programa com cinco desses filmes, inclusive o de Fanny e o da brasileira Tata Amaral, será exibido no SescTV (Canal 137 da NET), domingo, às 21h. Fanny conversou com o Estado.

Como você entrou no projeto?

Uma noite recebi um telefonema de uma pessoa me perguntando se eu gostaria de fazer um filme sobre a tolerância religiosa. Havia apenas uma regra: deveria ter seis minutos de duração. Há dois anos esse mesmo projeto tivera por tema os direitos do homem. Por que não? Sempre tive atração pelas coisas desconhecidas. Como eu não era uma pessoa suficientemente religiosa, desviei um pouco o tema e falei dos ciganos, que não formam uma religião mas uma cultura e um modo de vida. Eles aceitaram e está aí.

Não é o seu primeiro filme como diretora. Vimos aqui na Mostra de SP o seu longa-metragem Cinzas e Sangue. O que a levou a dirigir, depois de uma experiência tão intensa como atriz?

Não foi uma decisão racional. Eu estava fazendo uma peça no teatro e tinha todas as tardes livres. Comecei a pensar e, em seguida, me pus a escrever. Sou essencialmente uma atriz. Esse é o grande amor da minha vida: representar. E eu gostaria de ter atuado neste filme. Mas preferi concentrar minha atenção em dirigir. Além disso, era um filme difícil, feito sem dinheiro. Agora, no curta-metragem Chimères Absentes, eu me permiti dirigir e atuar ao mesmo tempo. Como me avisaram que não haveria dinheiro mesmo, decidi pelo menos me divertir (risos). Sempre me lembro que o cinema não é tão importante assim.

Mastroianni dizia: o cinema não é grande coisa…

Mas só grandes atores e atrizes podem dizê-lo.Pois é. Sempre vi a minha vida sobre um palco, seja no teatro, seja no cinema. O cinema amplifica as coisas. Tudo é grandioso. Tudo é tão intenso e dói… Mas sempre há algo em mim que diz: atenção, isso é apenas um jogo.

Essa sua intensidade me faz lembrar um cena em particular, uma cena inesquecível…

Eu acho que sei qual é (faz um gesto com a mão, indicando uma queda)… 

Em ‘A Mulher do Lado’…

Exato. Eu tinha certeza de que era esta (rindo).

É aquele momento em que sua personagem se encontra com o de Gérard Depardieu e simplesmente desmaia de paixão…

Essa cena é como um testamento. A gente pode morrer de amor. Era um filme, uma ficção. Um jogo, uma brincadeira. Mas estava dizendo tudo o que eu de verdade penso. Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual. Todo mundo pensa que morrer de amor é coisa de Anna Karenina, Madame Bovary, de personagem de Balzac. Não. É eterno. Pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia.

A nouvelle vague fez 50 anos e você filmou com alguns dos diretores que fizeram parte desse movimento. Acredita que tenha sido o período mais importante do cinema francês?

O cinema é como o vinho. Há as grandes colheitas, que dependem de fatores como o sol, as condições da terra, etc. Mas não devemos nos deter apenas nos grandes períodos do cinema, assim como não podemos ficar escravos dos grandes vinhos. O cinema é como a terra e o vinho, que vão se amalgamando. E talvez a nouvelle vague tenha sido inspirada por pessoas que vieram antes. Eu nunca acreditei numa teoria do cinema. Acho que é um métier muito individualista. Há lugar para todos e tudo alimenta tudo. Isso para dizer que houve a nouvelle vague e hoje estão vindo novas técnicas. Novas ondas (vagues) nesse movimento incessante do cinema. Alguma coisa se prepara e vai revolucionar o mundo do cinema. As coisas mudam, mas estamos sempre contando as mesmas histórias. Desde Homero.

Para entender – Os curtas de Then and Now têm 6 minutos e serão reunidos no longa previsto para 2011. Inclui diretores como Tata Amaral (Brasil), Fanny Ardant (França) Faouzi Bensaidi (Marrocos), Sergei Bodrov (Rússia) Jafar Panahi (Irã) e Robert Wilson (EUA), entre outros. O tema é a diversidade cultural, e concentra-se no ponto específico da tolerância religiosa. É um dos desafios do mundo globalizado, que não aprendeu a conviver com o diferente.