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Para Carpinejar, o riso é confissão ! Então, já somos confidentes !

“A poesia possui essa capacidade de perdurar o que não pode ser dito, o que foi sentido

Há tempos, queríamos fazer uma oficina com o Poeta Carpinejar, ouvir uma palestra dele, ir a uma noite de autógrafos, participar de um Consultório Sentimental ao Vivo, fazer uma entrevista com ele, conversar, trocar ideias, enfim, queríamos conhecer o magistral poeta gaúcho de perto. E finalmente, a hora chegou e semana que vem estaremos na oficina dele – que tem o sugestivo título de TANTA TERNURA – lá em Sampa, no Centro Cultural B. Arco.

Calhou de dar certo, calhou de estar no Rio e arrumar tempo de ir a São Paulo, e até esqueci os compromissos a cumprir em Fortaleza. Mas os desígnios de Deus são imperscrutáveis (conforme dizia meu sábio avô, Dr. João Miranda Leão), e se a oportunidade apareceu agora, é porque agora é que tem de ser.

Fabrício Carpinejar: nova oficina poética em São Paulo semana que vem…

E desde quando decidi-me por ir a São Paulo e participar da oficina, e que consegui comprar as passagens, e fiz minha inscrição, penso no quão insólito isso é pra quem há anos é leitora cotidiana do Poeta. E os amigos de verdade entendem e torcem, as amigas comentam e sabem de meu contentamento, e imaginam o tamanho da minha FELICIDADE.

E pensando nisso desde quarta, e, principalmente nesta sexta, em andanças pela orla carioca, fiquei matutando no quão é difícil conviver com o silêncio quando o falar e escrever precisam ser imperativos. Porque, afinal, o que pensa em primeiro lugar um jornalista quando admira alguém e vai encontrá-lo ? Naturalmente, pensa em fazer uma entrevista com esse certo alguém. E ao pensar na entrevista que tanto sonho em fazer com o poeta Carpinejar, sobrevém um estrondoso silêncio, e faltam-me as perguntas. Afinal, o que perguntar a alguém com a transparência de Carpi ? O que indagar a um Poeta que se mostra inteiro em suas belas crônicas (quase diárias) e em suas postagens cotidianas no Twitter ? O que ainda perguntar a quem se revela intensamente, e aos pedaços, em cada ideia ou pensamento que solta para o leitor como quem dá um mergulho num oceano sem medo do desconhecido ou das pedras e feras que possa encontrar no mar ?

Porque quem lê Carpinejar com a atenção devida e a sensibilidade necessária sabe que o POETA está integralmente presente nas palavras que emprega com maestria de ourives. Basta ter o cuidado de prestar atenção: a Alma do Poeta nos é entregue em papel celofane com uma coragem indubitável e uma notável capacidade de despir-se para melhor ofertar-se e solidarizar-se com o leitor !

Diante disso, ronda-me a inquietação: o que direi ao Poeta ao conhecê-lo ? O que ainda falta perguntar a ele que não tenha dito em suas crônicas antológicas, suas entrevistas, suas reportagens, suas participações no programa #encontro, seus ensinamentos no programa da Rádio Gaúcha, seus muitos e maravilhosos livros, seu arrebatador programa A Máquina ?

Não sei por onde começar… mas nada melhor que recorrer ao próprio Poeta para iniciar uma conversa com ele, e assim vou me apoiar em fortalezas carpinejarianas, como ele próprio ensina:

“Quando conhecemos alguém, o mais complicado é acertar as brincadeiras. Afinar o humor. Rir e fazer rir. É somente pelo riso que nos confessamos.”

“Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar”

“Não seja séria; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira.”

“Não tenho participação nas duas principais decisões da vida: nascer e morrer. O que me leva a concluir que só posso fazer bobagem.”

É o Poeta quem diz: “Felicidade é estar sensível, disponível, atento a qualquer distração; é uma predisposição a mudar de planos”.

Portanto, eu só posso é estar vivendo um momento de plena FELICIDADE. Afinal, meus planos foram absolutamente mudados: não me preparei para ser aluna de Carpinejar; não pensava ir a São Paulo agora; não imaginei sair do Rio embarcando para São Paulo, desviando minha rota para alcançar o sonho de conhecer o Poeta ao vivo. Mas como diz o querido Herbert Vianna, “Se é assim mesmo/ Que assim seja !

Que venha enfim o TANTA TERNURA, e que Deus me ajude a saber o que dizer diante de alguém a quem tanto Admiro e quero bem !

A oficina TANTA TERNURA,  com aulas de escrita criativa ministradas pelo Poeta CARPINEJAR, apresenta as teorias sobre o fazer literário e a possibilidade de acentuar a beleza da banalidade, Vai ser nos próximos dias 23, 24 e 25 em São Paulo, e as inscrições prosseguem abertas até dia 23.

Informações:
Carga horária total – 12 horas – 3 encontros
Aberto a todos os interessados em escrever crônicas.
Inscrições http://barco.art.br/oficina-de-cronica-tanta-ternura/

Millôr Fernandes, inteligência e humor que farão falta

O reverenciado escritor carioca MILLÔR FERNANDES, autor das melhores traduções já encenadas pelo Teatro Brasileiro, além de portador de uma das inteligências mais refinadas e bem humoradas do país, faleceu ontem às 21h em sua casa, no bairro de Ipanema. Segundo Ivan Fernandes, filho do escritor, ele teve falência múltipla dos órgãos e parada cardíaca. Millôr tinha ainda a filha Paula, e um neto, Gabriel. Ele foi casado com Wanda Rubino Fernandes. De acordo com sua certidão, ele nasceu em 27 de maio de 1924, mas o escritor afirmava que a data correta era 16 de agosto do ano anterior.

Segundo a família, o velório está marcado para esta quinta (29), das 10h às 15h, no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju,  Zona Portuária do Rio. Em seguida, o corpo será cremado em cerimônia só para a família.

Em 2011, o escritor chegou a ser internado duas vezes na Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul. Na época, a assessoria do hospital não detalhou o motivo da internação a pedido da família.

Nascido no bairro do Méier, Millôr sempre fez piada em relação ao seu registro de nascimento. Costumava brincar que percebeu somente aos 17 anos que o seu nome havia sido escrito errado na certidão: onde deveria estar Milton, leu “Millôr” (o corte da letra “t” confundia-se com um acento circunflexo, e o “n” com um “r”). Seja como for, gostou do novo nome e o adotaria a partir de então. “Milton nunca foi uma boa escolha”, comentaria anos mais tarde, durante uma entrevista. A data de nascimento também não estaria correta: em vez de 27 de maio de 1924, ele teria nascido em 16 de agosto do ano anterior.

 

Desenhista, tradutor, jornalista, roteirista de cinema e dramaturgo, Millôr foi um raro artista que obteve grande sucesso, de crítica e público, em todas as áreas nas quais enveredou. Ele, que se autodefinia um “escritor sem estilo”, começou no jornalismo em 1938, aos 15 anos, como contínuo e repaginador de “O Cruzeiro”, então uma pequena revista. Ele retornou à publicação em 1943, ao lado de Frederico Chateaubriand e a tornou um sucesso comercial. Lá, criou a famosa coluna Pif-Paf, que também teria desenhos seus.

Em 1948, viajou para os Estados Unidos e conheceu Walt Disney. “Nessa época eu ainda acreditava que Disney sabia desenhar. Só mais tarde, lendo sua biografia, aprendi que até aquela assinatura bacana com que ele autentica os desenhos é criação da equipe”, provoca, na autobiografia que escreveu em seu site. No ano seguinte, Millôr assinou seu primeiro roteiro cinematográfico, Modelo 19, e já foi logo agraciado com o Prêmio Governador do Estado de São Paulo, criado na década seguinte.

O início dos anos 50 seria importante na vida do autor, tanto pessoal quanto profissionalmente. Na companhia do também escritor Fernando Sabino, fez uma viagem de carro pelo Brasil, com duração de 45 dias. Em 1952, seria a vez da Europa, por onde permaneceria quatro meses. Um ano depois, veria a estreia de sua primeira peça de teatro, Uma mulher em três atos, no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo.

 E foi no teatro, como dramaturgo, que Millôr mais colecionou prêmios. Como em ”Um elefante no caos”, em 1960. Anos depois, diria em seu site: “Foi transformada num excelente espetáculo pela genial direção de João Bittencourt. Uma das poucas vezes que um diretor melhorou um trabalho meu”.

Também no teatro foi um tradutor prolífico e importante. Clássicos como “Rei Lear”, de William Shakespeare, a moderna As lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Fassbinder, ou o musical Chorus Line, de James Kirkwood e Nicholas Dante, chegaram aos palcos brasileiros através de suas mãos. “Ao traduzir é preciso ter todo o rigor e nenhum respeito pelo original”, diria em uma entrevista.

Um dos mais fortes e inesquecíveis papéis de Fernanda Montenegro: Petra von Kant, nascida de tradução impecável de Millôr Fernandes,,,

Roteirista
Como roteirista, escreveu mais de uma dezena de textos, dentre eles o longa Terra estrangeira, e “Memórias de um sargento de milícias”, adaptação da obra de José Manuel de Macedo produzida pela Rede Globo de Televisão. Também roterizou espetáculos musicais, como o musical Liberdade liberdade, escrito em parceria com Flávio Rangel, e “Do fundo do azul do mundo”, ao lado de Elizeth Cardoso e do Zimbo Trio.

Marco do Cinema Brasileiro, TERRA ESTRANGEIRA tem roteiro assinado por Millôr…

Recebeu uma homenagem durante o carnaval carioca de 1983, quando foi samba-enredo da Escola de Samba Acadêmicos do Sossego, de Niterói (RJ), e lá esteve para participar do desfile.

Fernanda Montenegro mantinha com Millôr Fernandes uma amizade de muitas décadas e intensa cumplicidade: o escritor assina alguns dos principais textos que Fernanda levou ao palco…

Dentre os veículos de imprensa, colaborou ainda com artigos e crônicas nos jornais O Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, O Diário Popular, Correio da Manhã, O Dia, Folha da Manhã e Diário da Noite. Para internet, criou o site Millôr Online, sobre o qual diria posteriormente: “Se eu soubesse o que atrai tanta gente, nunca mais faria de novo”.

E, como bom roteirista, ainda escreveria sobre a própria vida: “Meu destino não passa pelo poder, pela religião, por qualquer dessas entidades idiotas. Meu script é original, fui eu quem fez. Por isso não morro no fim”.

Seu perfil no Twitter já contava com mais de 285 mil seguidores.

* O AURORA DE CINEMA agradece a Millôr Fernandes pelo tanto que nos trouxe de alegria, reflexão, sensibilidade e inteligência, e pede a Deus que o acolha em PAZ…

Nesta hora, dói saber que não ficou nenhum registro em Documentário sobre este Grande Brasileiro que nos deixou um legado vigoroso, importante e necessário. Até quando nossos geniais Artistas, Escritores, Músicos, homens das Letras e das Artes vão passar para a outra Dimensão sem que se lembre de reverenciá-los devidamente, em forma de registro para as novas gerações ?