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E no entanto é preciso sambar…

Documentário de Valmir Moratelli é libelo contra o racismo

*Aurora Miranda Leão

           Faltam 30 dias para o carnaval começar. O cenário é a capital carioca, berço mais popular do samba, e as verbas para fazer a folia desfilar como Rainha na cidade, tão decantada em verso e prosa, perigam não chegar para garantir a festa que leva milhares à Passarela do Samba e encanta retinas do mundo inteiro. Dezenas de comunidades que trabalham o ano inteiro para fazer a tristeza sucumbir em meio a lantejoulas, ritmistas, baterias, confetes, atabaques, passistas, brilhos e adereços, e ver a algazarra acontecer, vivem dias de ansiedade e aflição com a espera que parece não ter fim.

             Diante desse dilema, o jornalista Valmir Moratelli, de longa estrada na cobertura do carnaval das escolas de samba cariocas, cansado de ver diariamente o descaso que a prefeitura do Rio de Janeiro distribui, desavergonhadamente, para as festividades de Momo, toma uma decisão insólita – própria de quem sabe que a resistência é pedra fundamental entre os que pensam arte, defendem a vida e semeiam a igualdade -, inspirado pela incongruência política e incompetência dos gestores municipais.

            O ano é 2018 e a decisão de Moratelli foi convergente com sua sensibilidade: escancarar o descaso com a cultura egressa do povo, que ele tanto admira, aplaude e acompanha. Jornalista antenado e consciente das demandas sociais de seu tempo, capaz de compor um bailado rizomático de imagens poéticas, a opção de Valmir para exercitar seu direito de protestar contra as injustiças e arbitrariedades sociais foi fazer um registro audiovisual sobre essa peleja da cultura popular contra o assombroso descaso governamental com a maior festa coletiva do Brasil. Juntou alguns amigos, angariou parceiros para levar sua ideia adiante, partiu para uma vaquinha virtual e assim foram nascendo os primeiros atalhos na trilha do seu objetivo.

               Exatamente, um mês depois disso, estava pronto seu primeiro ensaio imagético sobre os dias difíceis, tensos, aflitivos e ansiosos que antecederam o carnaval carioca de 2019: TRINTA DIAS, um Carnaval entre a alegria e a desilusão !

            O documentário marca de forma auspiciosa a chegada de Valmir no arâmio audiovisual: TRINTA DIAS é muito mais que um desabafo contra o flagelo a que a desastrosa classe política do Rio de Janeiro vem submetendo o carnaval da terra do inesquecível Lalá, o monumental Lamartine Babo (compositor de todos os hinos dos clubes de futebol carioca).

             Com câmera sensível e competente nos registros; muito bem elaborada fotografia; produção que nem parece ter atuado movida apenas pelo gás da vontade de documentar; edição cuidadosa; roteiro que revela a competência jornalística de seu criador; depoimentos fortes, bonitos, emocionados e emocionantes, o filme perfaz um caminho narrativo simples, ideal para dar seu vigoroso recado contra o preconceito, a intolerância religiosa, a escravização vergonhosa de que este país é herdeiro, e a favor da pluralidade e da emergência de novos paradigmas sociais.

           “Saravá, meu povo/Saravá, pai Oxalá !”. Canta assim o refrão do samba-enredo da escola Alegria da Zona Sul, protagonista da narrativa audiovisual de Valmir Moratelli. Aguerrida, decidida, intrépida e disposta a estar na Marquês de Sapucaí com toda a garra, alegria e disposição dos milhares de componentes da escola, a Alegria saiu pra passarela do samba debaixo de uma enorme chuva. E é nesse ponto que o filme começa com a voz imponente de Camila Xavier (diretora da ala das baianas da escola) convocando todas as mulheres da agremiação a adentrarem a avenida dando seu melhor, algo como “Cada uma de nós será a outra desfilando em beleza, força e emoção. Cada uma dará a mão a outra, cada uma ajudando a outra a se vestir: aqui cada uma é todas nós ! Vamos, juntas o tempo todo, ser a voz e a alegria de cada uma, ecoando pela Sapucaí com toda a força da nossa emoção e do nosso samba. Agora a Alegria é o Carnaval e nós vamos sacudir a Sapucaí !”

           A voz pujante e impávida de Camila anuncia nas entrelinhas o que iremos ver, não apenas no Sambódromo construído por Brizola mas, sobretudo, na forma como a escola da Alegria vai desfilar na avenida fílmica de Moratelli. Tudo no documentário “Trinta Dias” é construído com tocante singeleza: os preparativos dos artesãos da escola, o dia da tradicional feijoada, os passos dos brincantes em genuína celebração da festa que trazem no berço de sua ancestralidade, a desesperança do diretor da escola, o desestímulo do presidente da liga do grupo de acesso da folia, mergulhado em revolta e tristeza ao constatar o desprezo a que foi relegada a maior festa da cultura popular do planeta.

           Não há dúvida: há um poeta do jornalismo conduzindo o enredo que mescla desilusão e alegria mas em nenhum ponto desequilibra. Há um comunicador que tem o dom da fala e a eloquência da imagem para conduzir o desassossego que é mote do seu coração quando se fala em povo, carnaval, Rio de Janeiro e Cultura.

               “Trinta Dias” poderia ser um filme pequeno, contando apenas 30 dias de uma lenta (e inconcebível) agonia. Mas não: é muito mais que um registro audiovisual de uma fase ignóbil do carnaval do Rio. Valmir Moratelli mostra que quando entra na cena é pra valer e agiganta de forma notável a temática que embasa seu constructo audiovisual. Os trinta dias de tensão e afligimento da escola de samba “Alegria da zona sul” se transformam em senha para a metanarrativa que ele quer levar adiante.

         Além de Camila abrindo o filme com uma legenda imaginária que escreve Negritude, Feminismo e Liberdade em letras garrafais, o filme traz também os depoimentos de Luiz Antônio Simas, Fábio Fabato, Felipe Ferreira e Carolina Rocha Silva. Todos num belo mosaico semiótico que vai sendo desenhado com cuidado e delicadeza para bradar contra o racismo, denunciar o preconceito, saudar o sagrado e o profano, misturar todas as etnias e celebrar a potência cultural brasileira.

            Um caloroso Parabéns a Valmir Moratelli e Fabiano Araruna (El Tigre Produções) pelo aguerrido trabalho, e um Viva à sua competente equipe: Vitor Kruter no som; Guilherme Bezerra, Pedro Villaim e Fabrício Menicucci na fotografia, e Artur de Carvalho no design.

        TRINTA DIAS é um libelo contra o preconceito e uma ode às nossas raízes afro-ameríndias. Precisa ser visto: é uma aula de história, apreço pelo carnaval e respeito pela Cultura Popular. Tem ademais uma bela fotografia, enquadramentos preciosos (como a chuva amanhecendo no viaduto da Sapucaí), depoimentos fortíssimos sobre nossas raízes, e críticas potentes à descabida equação do binarismo sagrado X profano.

Documentário pode ser visto online no canal Prime Box Brasil

        TRINTA DIAS é um belo e respeitável Documentário ! Vale a pena ser visto e revisto com atenção e carinho.

*Aurora Miranda Leão é jornalista, pós-graduada em Audiovisual em meios eletrônicos, doutoranda em Comunicação pela UFJF e editora do blog Aurora de Cinema.

Coronavírus escancarou preconceito com idosos que telenovela já havia mostrado

Jornalista Valmir Moratelli analisa cenário inóspito para idosos 

Leopoldo e Flora Mulheres Apaixonadas (Foto: CEDOC/ TV Globo)

Flora (Carmem Silva) e Leopoldo (Oswaldo Louzada) sofriam nas mãos da neta.

 

Novela Mulheres Apaixonadas, 2003*: Dóris (vivida por Regiane Alves) é uma menina minada, que despreza e humilha os avós, Flora e Leopoldo (interpretados por Carmem Silva e Oswaldo Louzada), com quem divide o apartamento no Leblon, na zona sul do Rio. Em uma das cenas, do primoroso texto de Manoel Carlos, Dóris assim se dirige aos avós: “Tem que ter um pouco mais de juízo e um pouquinho mais de consciência de que vocês atrapalham, gente! (…) Vocês dão muito trabalho, dão muita despesa também. Vovô agora com esses chiliques, só de remédio foi uma fortuna. (…) Não servem pra nada. Já pensaram quando morrer? Vão ser enterrados onde? Já pensaram nisso?”.

As fortes cenas de Dóris maltratando os avós chocaram o país, a ponto do Congresso ter aprovado, ainda em 2003, o Estatuto do Idoso. O que o Brasil ouve agora nos discursos de governantes e empresários já foi denunciado lá atrás, há 17 anos, pela nossa ficção televisiva. É o chamado “ageísmo” – que vem do inglês “age” (idade), e significa discriminação etária. Na verdade, a pandemia do coronavírus (covid-19) apenas escancarou o preconceito com idosos sempre emudecido no Brasil.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que representa 13% da população. A projeção é que, em 2031, o número de idosos (43,2 milhões) supere pela primeira vez o de crianças de 0 a 14 anos (42,3 milhões). Esses números reforçam que os idosos são parcela significativa de uma população que, mesmo ainda se enganando como jovem, envelhece em ritmo acelerado.

O presidente Jair Bolsonaro, ao minimizar a pandemia e contrário às orientações da OMS, fez a seguinte declaração: “Eles têm outras doenças, mas dizem que morrem de coronavírus. (…) Não é o coronavírus que mata os velhinhos, essas pessoas já estão debilitadas”. Ainda nas primeiras temerosas semanas de março, o empresário e apresentador de TV Roberto Justus teve um áudio vazado, no qual conversava com amigos: “Na favela (o vírus) não vai matar ninguém. Vai matar só velhinho e gente doente”. No mesmo período, o empresário curitibano Júnior Dorski, sócio de uma rede de restaurantes, gravou um vídeo afirmando que “não podemos (parar) por conta de 5 mil ou 7 mil pessoas”.

O coronavírus, entre tantas consequências nefastas, desnudou o ageísmo do Brasil. E por isso o texto de Manoel Carlos permanece tão atual. Só que agora quem fala que os idosos “não servem pra nada” e “dão muito trabalho” não é obra de ficção. A agressividade com que tratam a população idosa, diminuindo sua importância econômica e – mais violento – menosprezando sua humanidade, é reflexo de um país que não quer se enxergar no espelho. Mas já foi escancarado na telenovela.

O Brasil assiste em 2020 à continuação do discurso de Dóris. Se aquela jovem atroz vivesse nos tempos atuais, mandaria seus doces avós, Flora e Leopoldo, circularem livremente pela orla, e ainda diria para não se preocuparem com o vírus que já contaminou mais de três milhões de pessoas no mundo, pois “é só uma gripezinha”.

▷ Aurora Miranda Leao 📷🎬📺🎶🎭 (@auroradecinema) • Instagram ...

* Valmir Moratelli é autor do livro “O que as telenovelas exibem enquanto o mundo se transforma e doutorando em Comunicação pela PUC-Rio.

Antropóloga Miriam Goldenberg atua para dirimir preconceito com 3a idade

Referendando a percepção de Moratelli, a antropóloga Mirian Goldenberg, que há duas décadas pesquisa sobre envelhecimento, também revela preocupação com o momento atual. Para a pesquisadora, esse preconceito sempre existiu e foi intensificado pela pandemia:

“O que temos visto nesta pandemia são discursos que chamo de velhofóbicos se generalizando. Políticos, empresários e até o presidente da República já disseram que ‘não se pode deixar a economia parar’ e que os jovens ‘têm que voltar a trabalhar’. Ou até que os velhos vão morrer ‘mais cedo ou mais tarde’. Estamos assistindo horrorizados a discursos sórdidos, recheados de estigmas, preconceitos e violências contra os mais velhos. […] Os velhos sempre foram vistos como um peso para a sociedade, ou seja, já experimentam o que chamo de ‘morte simbólica’. O valor que se dá a essas pessoas mais velhas é quase nulo, socialmente e dentro de casa”.

E dá uma importante dica:

“Tenho tentado fazer as pessoas escutarem os mais velhos. Esse é meu propósito desde que começou essa pandemia. Não dá para ficar dando ordem. Precisamos compreender a a realidade deles e juntos com eles encontrar alternativas para amenizar essa situação, de forma que eles não vivam como se estivessem numa prisão.

Isso seria uma morte antecipada para eles.

Ligue para eles, faça atividades junto com eles. Faça com que eles se sintam vivos, úteis, amados, cuidados”.

Goldenberg e seu amigo, Guedes, de 97 anos

Mirian Goldenberg e Guedes, seu amigo de 97 anos…

“Todos caminham para a velhice”, alerta Miriam Goldenberg:

“É urgente que todos aprendam uma lição importante: a única categoria social que une todo mundo é ser velho. A criança e o jovem de hoje serão os velhos de amanhã. Os velhofóbicos estão construindo o seu próprio destino como velhos, e também o destino dos seus filhos e netos: os velhos de amanhã. Ou seja, muitas dessas pessoas não se enxergam como velhos. A velhice é associada à imobilidade, à doença, à incapacidade, à inutilidade. Por isso ninguém se reconhece como velho, nem os próprios velhos.”

*Com informações de Luis Barrucho, da BBC News Brasil

Veja mais em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52425735

Valmir Moratelli vê Alegria na crise do carnaval e faz Cinema saudando força da negritude: Saravá !

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Com o enredo Saravá, Umbanda, a escola de samba carioca Alegria da Zona Sul, do grupo A, enfrentou grandes dificuldades para desfilar na Sapucaí este ano.

Mas a luta valeu a pena: a escola fez bonito na Passarela do Samba, levou sua ginga para celebrar Momo e contagiou a avenida com o vermelho e branco alegre de suas alas, e, de quebra, ainda virou tema de documentário do jornalista Valmir Moratelli.

Valmir 19

Com intenção de espalhar mensagens de otimismo, resistência, força, caridade, amor e fé, a Alegria da Zona Sul valeu-se do enredo do carnavalesco Marco Antonio Falleiros, para desfilar no Sambódromo a história da umbanda através das palavras de um sábio preto velho.

Apaixonado por samba e jornalista com atuação indormida nas lides culturais, Valmir Moratelli convidou o  produtor Fabiano Araruna, da El Tigre Studio, e juntos decidiram registrar o drama da vermelho e branco para não deixar de estar na Sapucaí durante o Carnaval, e realizaram um filme que está em fase final de captação de recursos. É Moratelli quem explica:

— A ideia do documentário surgiu com o objetivo de acompanhar toda a crise que o carnaval carioca atravessou e que acreditamos ser a maior da história. Cubro carnaval há mais de dez anos e nunca vi um cenário tão devastador como este de 2019 nas escolas de samba.

Moratelli e Araruna acompanharam o cotidiano no barracão da escola, a preparação das fantasias, a aflição dos integrantes, a disposição, a garra, o espírito de persistência e levaram a sensibilidade e as câmeras para registrar todos os ensaios da Alegria:

—Escolhemos a Alegria porque o enredo é de grande força, principalmente refletindo o drama vivido pelas escolas. Temos um prefeito que está diminuindo gradativamente, e de forma absurda, a verba para todas as escolas. E ainda coloca a população contra as agremiações ao dizer que reduziu a verba para gastar com saúde e educação — declarou Moratelli à época das filmagens.

A crise vivida pela Alegria da Zona Sul e como a agremiação transformou tristeza, sofrimento, revolta, desgaste e dificuldade em potência e samba no pé estará na telona em breve no documentário “30 DIAS – Um carnaval entre a alegria e a desilusão”.

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O filme de Valmir Moratelli e Fabiano Araruna é uma produção independente e precisa da colaboração de amigos, comunicadores, sambistas, profissionais e estudantes de áreas afetas à música, ao cinema e às artes de modo geral, além de admiradores do samba e da cultura para ser concluído.

Acesse o link e veja como participar: esta é a última semana !

Conheça um pouco mais dessa história conferindo o instigante trailler do filme:

https://www.catarse.me/alegriadoc?fbclid=IwAR1XKeOLj1jD6LIOIB1nnuzjEAWHWmoH9I_U4Ucz5lgoeth0o4QKaYIEL-4

Raízes da Alegria

A escola foi criada em 28 de julho de 1992, a partir da união dos blocos de enredo Alegria de Copacabana e Unidos do Cantagalo. Os blocos, que atraíam moradores do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, desfilavam na Praia de Copacabana, próximo ao Posto Cinco, onde até hoje ocorrem ensaios. Este ano, a escola ganhou uma quadra, na Rua Frei Caneca 239, ao lado do Sambódromo.