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Miguel Jorge, De Ouro em Ouro

O escritor goiano Miguel Jorge é um querido. Reconheço entre seus traços mais marcantes a elegância no convívio, a atenção indormida com os amigos e sua intensa ligação e interesse por tudo quanto se refere à Cultura.

Conheci-o ainda na primeira edição do FestCineGoiânia, em 2005, importante festival de CINEMA BRASILEIRO que idealizou ao lado da agitadora cultural e produtora Débora Torres, outra querida de quem o Cinema me fez irmã.

A partir de então, comecei a “descobrir” Miguel Jorge, escritor dos mais atuantes em solo goiano.

O Poeta é natural de Campo Grande (MS) e ainda garoto mudou-se com os pais para Inhumas (GO), onde fez os primeiros estudos.

É formado em Farmácia e Bioquímica pela UFMG, Direito e Letras Vernáculas pela UCG, lecionou Farmacotécnica na Faculdade de Farmácia da UFG e Literatura Brasileira no Departamento de Letras da Universidade Católica de Goiás.

Foi um dos fundadores do GEN (Grupo de Escritores Novos) e seu presidente por duas vezes. Também foi por duas vezes presidente da UBE, seção de Goiás. Dirigiu também por duas vezes o Conselho Estadual de Cultura e integra os quadros de críticos de arte da ABCA e  AICA, ocupando a Cadeira número 8, na Academia Goiana de Letras.

Seus textos também já ganharam as telas de cinema, seja atavés de curtas ou longas-metragens. É dele, por exemplo, o roteiro de Wataú (Prêmio de Incentivo Cultural do Ministério da Cultura), filmado às margens do rio Araguaia, sob a direção de Débora Torres.

Com o cineasta João Batista de Andrade, roteirizou o longa Veias e Vinhos, baseado em seu romance homônimo, filmado em São Paulo, tendo no elenco Simone Spolladore, Leonardo Vieira, Eva Wilma, José Dumont, Celso Frateschi, Marcela Moura e Ailton Graça, sob a direção do próprio João Batista, seu amigo de longa data, que este ano realizou um Doc em homenagem ao amigo escritor.

O nome de Miguel Jorge consta do The Dictionary of international Biografhy (Tenty-Third Edition), England.

E é de MIGUEL JORGE o belo livro de poemas que tenho em mãos – DE OURO EM OURO.

Publicado pelo Instituto Casa Brasil de Cultura, o livro vem em bela caixa contendo ainda 15 gravuras originais do artista Roos e um Cd com os poemas interpretados pelo próprio autor.

E por tão instigante o presente que recebi de Miguel, convido você, leitor amigo, a partilhar um pouco da vasta obra do poeta comigo. Vamos ao poema…

NO MAR, NENHUM BARCO

Os amores são largos e longos e cabem nas cartas.

A noite lenta fere de faca a luz cega do medo.

Indiferentes, as borboletas são anjos vestidos de prata..

Assim, os musgos vão cobrindo de vermelho os moluscos dentro das caixas.

São do domingo os escargots, lentas flores, colocadas sobre bandejas de prata.

Talvez não se possa evitar a falta de pão, os reflexos da ira,

a dor que não se quer dar aos filhos.

Dormem as naves sobre as janelas do mar, talvez um barco, igual a  um barco, indo além do mar, brasa da alma (Baco num riso igual a um risco de língua nas bocas).

Igual a um casaco de frio que se pendura detrás da porta.

Igual às ondas a testemunhar as rosas se desfazendo no branco laço das águas.

(A noite carrega os diamantes no impacto do chão que se faz cinza).

Se viam roucas as Américas, a constituição dos ventos cobrindo

lábios muito finos. Estrelas ostentam um festim ameno de  vozes.

Os ratos, os gatos, o nojo anunciado. O gozo desfeito em nada, se põe de lado, ainda mais quando do céu se toma lei e posse de secretos códigos.

Este é um dos belos poemas onde Goiânia me renasce em saudades… NO MAR, NENHUM BARCO…

Da lavra de MIGUEL JORGE, este quase goiano cuja POESIA nos encanta tanto quanto sua maneira de ser e estar plena de LUZ, sensibilidade, refinamento de gestos e ações cotidianas.

Como a sua POESIA que se aninha fácil em nossa emoção, tão naturalmente tocante quanto concisa, bela, objetivamente clara.

A POESIA de MIGUEL JORGE é assim: mesmo que não se saiba explicar porquês, prontamente ela consegue nossa adesão.

O resto é DE OURO EM OURO

De
DE OURO EM OURO
Poemas de Miguel Jorge

Goiânia: Instituto Centro-Brasileiro de Cultura, 2009.
64 p.  ilus.   ISBN  978-85-9876237-7

 Como diz FERNANDO PY: “Miguel Jorge realiza uma articulação entre o silêncio e a palavra, desnudando(se) (n)o cerne de sentimentos, sob três aspectos: o pessoal, o social e o estético-filosófico, inquirindo os valores fundamentais do homem sob a capa de exercícios lúdicos que confrontam o visual e o verbal.”