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Bressane: “Precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro”

‘Não me enterrem vivo’

Cineasta Julio Bressane reclama de boicote ao seu trabalho por parte das esquerdas e da imprensa

* Arnaldo Bloch para o jornal O Globo

 Julio Bressane em Lisboa, na Avenida da Liberdade - Foto Enric Vives-Rubio

Em Lisboa para mais uma retrospectiva europeia de sua obra, o cineasta Julio Bressane diz que no Brasil é ignorado pelos editais de financiamento de filmes, as esquerdas e a imprensa o boicotam há 40 anos e a opinião pública de hoje é herdeira do fascismo. 

Como é ser um dito cineasta marginal no século XXI?

JULIO BRESSANE: Hoje a expressão marginal goza até de certo prestígio. Mas foi uma invenção espúria no âmbito de um certo esquerdismo que não perdoava qualquer espírito de vanguarda que não rezasse pela cartilha, como o meu. Não era um bloco monolítico. Afinal, Cinema Novo, em termos de filmes, não queria dizer nada. É sempre assim: no fim, colocam um rótulo para facilitar a inserção no mercado.

Como a bossa nova…

Ou como a Nouvelle Vague. Truffaut, quando indagado sobre o movimento, disse que eram uns contra os outros. Mas o fato é que a coisa do “marginal”, para esse grupo, significava a abjeção suprema, o antissocial. E essas pessoas criaram a Embrafilme, tomaram conta das fontes de financiamento e continuam no poder até hoje. Assim o guichê da Embrafilme ficou vedado a uma meia dúzia de desajustados, entre os quais gente como eu e o Sganzerla. Por isso precisei inventar uma maneira de se fazer filmes sem dinheiro, para sobreviver.

Mas como seus filmes são financiados?

Em geral, como qualquer filme: através do dinheiro público. Mas com orçamentos pífios, que variam de R$ 200 mil a R$ 500 mil. Porém, um dos meus projetos recentes no qual eu mais apostava, “O beduíno”, vem sendo barrado há dois anos. Nos três editais de que participei, solicitando R$ 600 mil para produzir todo o filme, as comissões julgadoras concederam seu aval para 65 longas-metragens e eu fiquei de fora!

O que aconteceu?

Além das razões que citei antes, há esta mentalidade de que “filme de público” ou “filme de mercado” têm preferência. Ora, isso não existe. Com raras exceções, não há filme que dê lucro. A cada 50 filmes americanos, um se paga. Se considerar o custo do filme, o público não paga nem a cópia. O dinheiro vem única e exclusivamente das fontes, privadas ou oficiais, de financiamento. São elas que pagam as equipes, os diretores, os atores. Os filmes brasileiros, então… Com exceção de um ou dois, é tudo deficitário.

Dos seus filmes, qual deu mais público até hoje?

Nenhum deu “mais público”, já que nenhum deu público algum… Mas mesmo que nem eu vá, eles nunca dão prejuízo em comparação com esses colossos de custos astronômicos. Filmes que custam R$ 200 mil já estão no lucro só de irem à tela. O mais recente, “A erva do rato”, ficou nove semanas em cartaz numa sala. Há grandes produções que ficam o mesmo tempo e produzem grandes rombos. Outra limitação é a imprensa. Venho sendo vítima de um trabalho prolongado de censura a mim e a meus filmes. Quando fiz “Cleópatra”, a maneira com que o filme foi tratado foi de uma brutalidade e vulgaridade sem par. É uma mentalidade genocidária. O que não quero é que me enterrem vivo, isso é que não pode. Essas coisas representam uma espécie de veto à sua vida. Feito por gente com sensibilidade de barata. Esquecem que há gente sensível. Às vezes o que para uma pessoa é uma coisa natural pode levar outra à morte. Conheço em cinema pelo menos três casos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2011/05/06/julio-bressane-reclama-de-boicote-ao-seu-trabalho-por-parte-das-esquerdas-da-imprensa-924399511.asp#ixzz1Ljsd7CGr

 

* N.R.: Cineasta de minha maior admiração, cuja obra O Mandarim, de 1995, foi tema de meu trabalho de conclusão da Pós-Graduação na UFC – Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos -, JÚLIO BRESSANE é de nossos cineastas o mais erudito e um dos homens mais doces com quem já tive a oportunidade de conversar.

Fico profundamente triste e solidária ao desabafo de BRESSANE e, por isso, não posso deixar de expressar minha mais intensa sintonia com o pensamento e a obra magnânima deste Cineasta – a quem o mundo reverencia constantemente, seja através de mostras retrospectivas, palestras, debates e festivais de cinema, vide a homenagem que ora recebe em Portugal; a que recebeu no início do ano no Uruguai; e as homenagens anuais na Itália -, bem como minha completa repulsa a esta sensação de indiferença e desapreço que hoje se apossa de Julio, inexplicável por tudo quanto já doou à Cultura Brasileira e ao acervo emocional de tantas pessoas que, como eu, aprenderam a  admirá-lo por sua obra importante, singular, e necessária, e descobriram no cineasta um homem sábio, profundo conhecedor da cultura de seu país, sensível, de uma delicadeza que se expressa até na sua maneira pausada de falar e na sua voz sempre baixinha, e, sobretudo, um homem de Cultura e da Cultura, um erudito na verdadeira acepção da palavra.

Nosso APLAUSO mais carinhoso e solidário a JÚLIO BRESSANE e nossa profunda Admiração pelo seu Cinema e sua obra magistral.