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Ao Mestre do Clarinete

Sob aplausos, músicos e amigos dão adeus a Paulo Moura

Foi sem música, mas com aplausos, que familiares, músicos, artistas, gente famosa e anônima, se despediu do maestro, clarinetista e saxofonista Paulo Moura. Ele foi velado nessa quarta (14) no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, centro do Rio, palco de muitos de seus shows.

Fotos: Hélio Motta

Velório de Paulo Moura no Teatro João Caetano, no Rio

A despedida musical ocorreu no último sábado, com Moura ainda vivo, no quarto da Clínica São Vicente, na Gávea, onde ele estava hospitalizado. A viúva de Moura, a psicanalista Halina Grynberg, contou que ela e um grupo de amigos, entre os quais o sobrinho Gabriel Moura, o tecladista Wagner Tiso, e o violonista Marcelo Gonçalves, fizeram um sarau. “Achamos que ia fazer bem para ele ouvir música. Cantamos, conversamos e, de repente, ele pediu o clarinete. Pensei que estava de brincadeira, mas ele tocou e surpreendeu a todos”. Com os amigos, Moura tocou pela última vez. Foi Doce de Coco, de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho.

Paulista de São José do Rio Preto, onde nasceu em 15 de julho de 1932, Paulo Moura era considerado um dos maiores instrumentistas da música brasileira. Ganhou seu primeiro clarinete aos 8 anos e aos 11 anos começou a acompanhar o conjunto de seu pai em bailes populares. Tocou com grandes nomes como Ary Barroso, Tom Jobim, Elis Regina, Paulinho da Viola, Elis Regina e Marisa Monte. Também acompanhou astros internacionais como Lena Horn, Cab Calloway, Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Cannonball Adderley, Sammy Davis Jr e Marlene Dietrich. Com mais de 40 discos lançados, ele ganhou o Grammy em 2000 por seu disco “Pixinguinha: Paulo Moura e os Batutas”.

Os músicos Milton Nascimento e Gabriel Moura, sobrinho de Paulo Moura

“Levei o maior susto. Há duas semanas atrás eu o vi. Estava sorridente. Ele era um camarada sem fronteiras. Foi um dos primeiros que me receberam quando cheguei. Ele me abraçou como a um irmão. Vim com uma música diferente e ele não se importou”, lembrou Milton Nascimento, que se apresentou no João Caetano com Moura no espetáculo Milagre dos Peixes, em 1971. O cantor chegou ao velório por volta das 15h30 e foi cumprimentar familiares.

O teatro foi aberto às 11h para a cerimônia. Halina Grynberg e o filho do casal, Domingos, colocaram em cima do caixão um chapéu do músico e, em frente, um quadro com o retrato de Moura. O caixão ficou o tempo todo fechado. “O chapéu era como uma coroa que ele carregava”, afirmou Halina. Flores e uma bandeira da Imperatriz Leopoldinense também ornaram o caixão.

A atriz e cantora Zezé Motta considerou a morte do músico uma “perda para o mundo”. Zezé e Moura participaram do CD “Quarteto Negro”, lançado em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura no país.

 
Pery Ribeiro dá último adeus ao amigo Paulo Moura

Amiga de longa data, Alcione lembrou de momentos felizes com o clarinetista. “Ele dizia que eu tinha um pandeiro no peito. Estreamos a série Seis e Meia no Teatro João Caetano”, recordou.

Após o velório, o corpo de Moura seria levado para ser cremado, numa cerimônia restrita à família no cemitério do Caju, na zona portuária do Rio.

Paulo Moura deixa música inédita gravada com o sobrinho Gabriel Moura que deve ser lançada em breve com o título Ao velho Pedro – homenagem ao pai do artista.

 
*Com reportagem de Fernando Magalhães, do iG