Imagem do Astro Rei no famoso rio Guaíba… (foto Joyce MLeão Martins)
“Domingos em Porto Alegre têm um não-sei-o-que de encanto. Não se vestem de tédio. Não espalham poeira nas ruas, enquanto quedamos parados em casa (aliás, nenhuma vontade de ficar em casa !).
Não se descolorem como as folhas caídas do outono. Ao contrário, devem ter uma certa intimidade com a PRIMAVERA. Mesmo quando abusam das cores (e dos ventos) do frio, convidam o entusiasmo a passear. Acinzentados ou ensolarados, os domingos aqui costumam vir sempre acompanhados de crianças, cachorros, rapazes, moças e seus cachecóis. E ainda atraem a música, a arte, a amizade, todas ali, juntinhas, a caminhar pelo Parque da Redenção. Coisa mais linda !”
* O texto é de autoria de Joyce Miranda Leão Martins, que também fez a maioria das fotos.
O Parque da Redenção, em Porto Alegre, num domingo frio de junho…

Porto Alegre é uma cidade que me encanta, desde que a conheci. Gostar não se explica e talvez não saiba mesmo dizer porque gosto tanto da capital gaúcha. Sobretudo depois que minha filha foi morar lá, aí mesmo é que eu poderia ter passado a ‘desgostar’ da cidade… afinal, é meio por causa de Porto Alegre que hoje moro longe dela, minha única filha, amada e tão merecidamente admirada.
Uma flor cearense em meio à bela paisagem outonal gaúcha…
Mas o fato de Porto Alegre ser hoje uma saudade constante e apertada no peito, não me faz gostar menos dela. Ao contrário: POA passou a ser minha segunda cidade porque a cidade que recebeu de braços abertos e abriga com generosidade, beleza, amigos, outono, flores e folhas o melhor pedaço de mim… embora isso tudo me encha os olhos de lágrimas….
O Jardim Botânico de Porto Alegre: serenidade verde em cenário encantador…
O que me faz imediatamente lembrar-me do genial poeta gaúcho, Fabrício Carpinejar, cuja vocação poética extrapola qualquer pretensão de definir seu talento ou esquadrinhar sua versatilidade exemplarmente tocante, iluminada e iluminadora.
E Carpinejar é então mais um motivo para aumentar meu apreço e meu bem qeurer a Porto Alegre. O Poeta é de tal modo encantado com a cidade, que tem tatuado nas costas o mapa com a planta original da capital gaúcha. Mesmo nascido em Caxias do Sul, Carpinejar é um declarado apaixonado por Porto Alegre. E isso também contribui para meu amor por esta cidade… “Coisas de magia, sei lá…”, como tão bem cantam Kleiton e Kledir, outros dois queridos gaúchos.
Ai eu penso em SAUDADE e reproduzo aqui a mais bela crônica que já li sobre o tema. Pra variar, o texto também é de autoria de CARPINEJAR:
Saudade é uma covardia corajosa, uma ansiedade cheia de paciência, uma preocupação despreocupada. É se ofender elogiando outro, é se elogiar ofendendo o outro.Saudade é uma antecipação do abandono. Uma despedida provisória que dói igual a um desenlace definitivo. É um aceno que não entrega a mão ao ar, um cumprimento que não fecha os dedos.A saudade é acordar na sexta como se fosse sábado. É vestir nossa roupa predileta para permanecer em casa. É arrumar a cama para dormir no sofá.A saudade surge antes da saudade. Definimos dentro do fato qual será a lembrança de que sentiremos saudade. Sentimos saudade no meio da experiência.Saudade é uma alegria entristecendo. Porque toda alegria só será definitiva depois da saudade. Depois da tristeza.
Novo livro de Carpinejar, autografado para esta redatora: uma alegria imensa !
E pra fechar, mais uma crônica de Carpinejar, onde nos irmanamos no amor e afeição a PORTO ALEGRE:
“Nunca vai nevar em Porto Alegre, apesar dela acreditar em milagres. Se a cidade fosse previsível, não estaria nela. O Guaíba é um engradado de cerveja. De vez em quando alguma garrafa explode com o pôr-do-sol. E o casco espuma. O vento briga com o vento, como dois cães brincando. Há ilhas em sua volta, uma ilha em volta de ilhas. Amo a possibilidade de caminhar pela cidade a esmo. Posso atravessá-la e não estender a mão. Ir do estádio Beira-rio ao Olímpico e não reclamar do cansaço. Dá a certeza que chegarei em casa. Apanho a cidade com o canto do olho. Não é desesperada, atônica, nem alegre demais, afônica. É uma cidade sábia, como alguém que envelhece e não se aposenta. Em Porto Alegre, é possível pedir uma informação fora do guichê, ficar no banco sem parecer desempregado, cochilar no ônibus e ser acordado no ponto final. Não progrediu agredindo, nem retrocedeu censurando. Ficou do jeito que o último morador a deixou. Fruta que é mais gostosa verde. Porto Alegre foi engolida ainda no pé. Cidade baixa, que não serve aos suicidas. Exibicionistas não encontram trapézio nos viadutos. O viaduto é apenas uma criança subindo no muro. Porto Alegre tem um jeito residencial, mesmo no centro. Infantil, como um jóquei que deixa o cavalo crescer em seu lugar. Há mais lendas do que histórias, pelo estranho hábito de transformar em lenda a falta de notícia. As árvores aparecem de forma suficiente a não percebê-las. Não são numerosas, nem reduzidas, são. As nuvens se concentram em shoppings como balões promocionais. A orla é uma bicicleta, a curva de bicicleta – só cabem dois para olhá-la. Porto Alegre é uma cidade sem segunda-feira, começa tudo na terça. São seis dias por semana. Quem nasce em Porto Alegre recebe um dia de desconto. O domingo de sol cheira a churrasco. Cidade que usa pantufas, não chinelo de dedo [...] Não se acorda de noite para comprar um maço de cigarro, até as assombrações têm preguiça. O escuro conserva os vaga-lumes. A vida é como ela não poderia ser. Cidade vaidosa do seu passado mais do que seu futuro. Os recados são deixados nas paredes, não na geladeira. As velhas casas usam quadros-negros. As praças surgiram depois das estátuas. Deus é chamado em caso de urgência. Em Porto Alegre, não existe urgência”.

Aurora de Cinema e a reverência a um dos mais aclamados poetas gaúchos, Mário Quintana, grande influência na obra de Fabrício Carpinejar…

































































































































